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5 jun 2012

Motricidade Humana – qual o futuro?

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Autor deste artigo sugere a existencia da ciencia da motricidade humana (CMH), onde se integram o desporto, a danya, a ergonomia e a reabilitayao psicomotora e apresenta a referida ciencia humana como o terceiro corte epistemológico, nesta área do conhecimento, depois da ginástica e da educayao física, e assumindo uma nítida ruptura com a modernidade, designadamente com os dualismos que a distinguem.

Autor(es):Manuel Sérgio
Entidades(es):Universidad de Vigo
Congreso: I Congreso Internacional de las Ciencias del Deporte
Pontevedra 2006
ISBN: 9788461105526
Palabras claves: Human motricity science, sport, dance, ergonomics, psychomotive

Motricidade Humana – qual o futuro?

Resumo

Autor deste artigo sugere a existencia da ciencia da motricidade humana (CMH), onde se integram o desporto, a danya, a ergonomia e a reabilitayao psicomotora e apresenta a referida ciencia humana como o terceiro corte epistemológico, nesta área do conhecimento, depois da ginástica e da educayao física, e assumindo uma nítida ruptura com a modernidade, designadamente com os dualismos que a distinguem. A CMH surge como um problema ontológico, um problema epistemológico e um problema político e o seu futuro está na inequívoca passagem do “físico a complexidade humana, no movimento intencional da transcendencia (ou superayao) e tendo mesmo em conta uma intencionalidade que emerge da consciencia do corpo e que a fenomenologia nao salientou. Aliás, a transcendencia é aqui apresentada como o sentido da motricidade humana e da própria vida. o autor apresenta a ideia de que é preciso reestruturar os “curricula das licenciaturas em Motricidade Humana ou em Desporto, através do estudo do corpo físico-biológico, do corpo psicológico, do corpo cultural e noético e do corpo artístico.   Palavras-Chave   Ciencia da motricidade humana, desporto danya, ergonomia, reabilitayao psicomotora, transcendencia, corte epistemológico, complexidade, método integrativo, movimento intencional, corpo em acto, consciencia do corpo, corpo físico-biológico, corpo psicológico, corpo cultural e noético, corpo artístico, sentido, inovayao.     Abstract   The autor of this article suggest that there should be a human motricity science (HMS) which would include sport, dance, ergonomics and psychomotive rehabilitation and presents this human science as the third epistemological court in this area of knowledge after gymnastics and physical education, assuming a clear with modernity, specifically with the dualisms which characterise it. He presents HMS as an ontological problem, an epistemological problem and a political problem and its future is in the unequivocal passage from the “physical to human complexity, in the intentional motricity of transcendence (or surmounting) and really taking account of an intentionality which emerges from the conscience of the body and which phenomenology has not enhanced. In fact, transcendence is presented here as the meaning of human motricity and of life itself. The author presents the ideia that the “curricula” of degree courses in Human Motricity or Sport need to be restructured through the study of the physical-biological body, the psychological body, the cultural and noetic body, and the artistic body. Rrehabilitation, integrative method, intentional movement, body in action, conscience of the body, physical-biological body, psychological body, cultural and noetic body, artistic body, meaning, innovation.

1.

Se bem interpreto o mundo que me rodeia, no qual me movimento e sou, poderei fixar (com muito atrevimento) em dez as principais características do nosso tempo: a globalizayao, ou seja, através da tecnociencia, designadamente através das tecnologias da informayao (nao é a informayao a diferenya que faz a diferenya?), o mundo resume-se a uma aldeia (McLuhan), a uma telépolis (J. Echeverria), aberta, vulnerável e em constante mutayao; progressiva des-socializayao e precariedade do carácter social do trabalho, fomentadas pelo neoliberalismo vencedor e mundializado, o qual, embora as novas tecnologias, nao reduz o número dos desempregados; alta competiyao como “modus vivendi habitual do “homo oeconomicus que observa toda a sua vida a luz única dos seus interesses e ainda, devido ao economicismo ambiente, avaliayao das pessoas pelo que tem e nao pelo que sao; criayao empenhada, através do contra-poder antagónico e correspondente ao poder do ideal metafísico platónico, presente no discurso político, de valores decorrentes do reconhecimento da humanidade como um todo e com iguais direitos, na diversidade dos povos, das rayas, das culturas e de uma revoluyao científica, que habita o universo dos sistemas abertos e das estruturas dissipativas; inversao do platonismo, como queria Nietzsche, e portanto rejeiyao de uma ideia de outro como a repetiyao, em linguagem diferente, do Mesmo, o que significa que o princípio de tudo é um paradigma complexo e que o simples nao passa de mera aparencia (é preciso passar da identidade a diferenya, como a pós-modernidade, ou o pós-estruturalismo de Derrida e Deleuze, o aconselham); na ciencia hodierna, o desequilíbrio, o caos, o indeterminado resultam da complexidade e apelam ao surgimento de um novo Logos, de um novo Método; os progressos na segunda revoluyao da saúde, que se centram na saúde e nao na doenya, que preconizam o retorno a uma perspectiva ecológica e as reflexoes no campo da “ética para a saúde; a certeza que o estado adulto de uma área do conhecimento se mede também pela consciencia da sua responsabilidade social; é no modo de agir e movimentar-se que o ser humano corporiza uma segunda criayao e, portanto, é na transcendencia típica da motricidade humana, onde nao se encontra qualquer metalinguagem despótica, que o homem se aproxima de Absoluto (ou de Deus); a secularizayao da moral e da política, de acordo com a precedencia da existencia sobre a essencia, anunciada em Rousseau e em Sartre; crise evidente das religioes, bem expressa, tanto no terrorismo em nome de Alá, como no espírito de cruzada de G. Bush e na eleiyao, para Papa, do Cardeal Ratzinger, brayo direito de Joao Paulo II, em tudo o que neste papado significou reacyao e conservantismo.

A ciencia da motricidade humana (CMH), que apresenta como sub-sistemas mais visíveis o desporto (onde também cabe o jogo desportivo), a danya, a ergonomia e a reabilitayao psicomotora, nasce, no mundo cultural e social que acima sintetizei, como problema ontológico, como problema epistemológico, como problema político. Como problema ontológico, pela ausencia de um paradigma organizador que norteasse a prática e a investigayao sobre o ser humano, no movimento intencional da transcendencia, onde o que José Gil chama “consciencia do corpo está presente, pois que a intencionalidade, para além do que a fenomenologia estudou, dirige-se ao corpo, sem o reduzir a objecto. “A consciencia do corpo abre-se em direcyao a um mundo primitivo, selvagem ou originário, para empregarmos (…) a terminologia fenomenológica (…). No entanto, este mundo nao comporta abismos psicológicos, nem se limita apenas ao campo dos movimentos corporais. A consciencia do corpo nao acaba no corpo. Mergulhando no corpo, a consciencia abre-se ao mundo; já nao como consciencia de alguma coisa, já nao segundo uma intencionalidade que faria dela a doadora de sentido, nao pondo um objecto diante de si, mas como adesao imediata ao mundo, como contacto e contágio com as foryas do mundo(Movimento Total – o corpo e a dana, Relógio d’Água, Lisboa, 2001, p. 176). Assim, a Educayao Física e o seu conteúdo sao declaradamente insuficientes para comporem uma ciencia. Ela deverá apresentar-se, unicamente, como o ramo pedagógico de uma qualquer ciencia. Mas…que ciencia? E uma ciencia formal, empírico-formal, ou hermeneutica? Neste assunto se tocou, em breves e lúcidas palavras de Cagigal, Le Boulch, Parlebas, Manoel Tubino, Eugenia Trigo, Joao Tojal e poucos mais. Permitam-me que intercale esta nótula, no meu discurso: se a morte o nao levasse, Cagigal, por certo, estaria, hoje, ao nosso lado. A sua atitude eminentemente crítica e a sua inteligencia aguda nao o deixariam com uma linguagem que nao é reflexo da realidade.

De facto, o que conhecemos conhecemo­lo pela mediayao da linguagem. Como Heidegger o assinala, na Carta sobre o Humanismo (Guimaraes Editores, Lisboa, p.50), “há um pertencer originário da palavra ao ser. o ser pensa-se, dizendo-se. Mas o ser também se diz, agindo. No entender de Hannah Arendt, o ser humano é um iniciador (A Condiao Humana, Relógio d’Água, Lisboa, 2001, p. 227). Só que “nenhuma outra actividade humana precisa tanto do discurso como a acyao (idem, ibidem, p.227). Por isso, me parece lícito perguntar, se é possível, na área do conhecimento que estudamos, um vocabulário científico com a palavra físico, no lugar de pessoa. As expressoes cultura física, actividade física e educaao física resultam de uma linguagem que o racionalismo popularizou e universalizou e o senso comum dos políticos decretou e oficializou. Nunca será demais repetir que a Educayao Física, depois da Ginástica que a República de Platao já refere, nasce na Europa, nos séculos XVII e XVIII e precisou do capitalismo colonizador para globalizar-se. Em 1569, em Veneza, ainda Hieronymus Mercurialis publicava o De Arte Gymnastica, obra em seis volumes, onde se distingue tres tipos de ginástica: médica, militar e atlética. De referir, no entanto, que a repercussao deste livro foi tal que, além das numerosas reediyoes, era frequentemente citada, no século XIX, nos textos de Gutsmuths, Anton Vieth e Friedrich Jahn. No Brasil, segundo Inezil Pena Marinho, na sua  História da Educaao Física no Brasil, “em 1828, aparece em Pernambuco o primeiro livro editado no Brasil, sobre Educayao Física e essa glória cabe a Joaquim Jerónimo Serpa. É um Tratado de Educaao Física
– Moral dos Meninos (p. 33). A CMH é inseparável da linguagem e do tempo: da linguagem típica da produyao de novas formas do conhecimento, da passagem de uma razao una a uma razao plural e da revoluyao hermeneutica de Heidegger e Gadamer e proveniente de um tempo em que todo o real é complexo e, por isso, em que se procura um pensamento “que compreenda que o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e em que o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes(Edgar Morin, Reformar o Pensamento, Instituto Piaget, Lisboa, p.94). A CMH torna-se ontologia porque é através dela que o ser humano, no acto da transcendencia (que há-de resultar em consciencia da unidade relacional entre as pessoas), é verdadeiramente.

Por isso, esta transcendencia nao promove a desigualdade, pois que se faz em relayao e comunhao com um “tu fraterno. Muitas das controvérsias científicas podem exemplificar o que vem de escrever-se. No entanto, “o valor simbólico das disciplinas nao provém das suas propriedades intrínsecas, mas, isso sim, da representayao social (ou das representayoes sociais) do seu conteúdo, do seu lugar na hierarquia disciplinar e do seu grau, suposto, de cientificidade e de eficiencia (B. Bonfils-Mabilon e B. Étienne, Será a ciencia política uma ciencia?, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, pp. 65/66). Por seu turno, o racionalismo assumiu-se como razao forte (só que tao forte que olhou para a importancia do corpo, com um olhar vagaroso e claudicante). Ao invés, a razao hermeneutica e pós-moderna afirma-se como pensamento débil, porque tudo é temporal, conjectural e histórico. A CMH, destituída de qualquer presunyao metafísica (designadamente a metafísica do “pensamento arqueológico), encontra na transcendencia (ou superayao), mormente nos aspectos sociais e políticos, o sentido da vida humana. De facto, a transcendencia funciona como potenciadora de uma dimensao sapiencial, tanto no desporto, como no lazer, na saúde, na educayao, no trabalho. Porque só quem quer ser-mais, lutando por um mundo de maior justiya social e de convivencia com todas as diversidades, vive verdadeiramente. Para dar mais anos a vida e mais vida aos anos, importa que se implemente uma saúde pública que ultrapasse, sem dispensar, o modelo biomédico, fundamentado na biologia molecular como disciplina básica, dando ao olvido o contexto social, o papel do médico, o sistema de cuidados de saúde, etc. Numa ciencia humana, como a Medicina, a Psicologia, a CMH e outras, há que ter em conta a pessoa, elemento de um todo social e comunitário e capaz de uma “poética do devaneio (Bachelard) e nao só o indivíduo, afivelado em si mesmo.

2. A CMH, como resistencia aos métodos consagrados, as formas estabelecidas e rotineiras, a uma competiyao que o economicismo promove, encontra-se próxima dos conceitos de complexidade e diferenya e assume uma inequívoca ruptura com a modernidade, com o seu dualismo, logocentrismo, eurocentrismo, antropocentrismo, patriarcalismo (será caso para perguntar, se Gaston Bachelard, com o seu corte epistemológico, onde há uma junyao animus(razao)-anima(imaginayao), nao é um predecessor da pós-modernidade). Todos os “ismos modernos levaram, demasiadas vezes, a violencia e a guerra. Daqui nasceu uma ciencia concebida como teoria para o domínio da razao sobre o mundo material, limitado a extensao e movimento, natureza passiva, a disposiyao do ser humano e que acentuou a ruptura entre a natureza e a cultura, entre o corpo e o espírito, entre o natural e o artificial, entre o observador e o observado, entre o subjectivo e o objectivo, entre o desporto e a vida política. Se bem que a voz de S. Paulo saia de rompante dos arcanos da cultura ocidental, relembrando que todos os que foram baptizados sao membros do corpo do Filho de Deus, a  metáfora do corpo místico de Cristo nao fez ancorar, no mundo material, qualquer assomo de igualdade, no velho dualismo alma-corpo. Ao contrário, a CMH é contemporanea do legado hegelo-marxista de sociedade, onde a evoluyao histórica se processa em direcyao a maior justiya e liberdade; da perspectiva foucaultiana do corpo historicamente dependente; da perspectiva construtivista de Elias, a qual realya a ligayao entre os factores biológicos e os sociais; da dicotomia entre corpo-objecto e corpo-vivido, que Merleau-Ponty esclarece e distingue; do corpo na abordagem psicanalítica (de Freud a Lacan); da imagem consumista do corpo, o qual, segundo Baudrillard, é “o mais belo, precioso e resplandecente de todos os objectos (A Sociedade de Consumo, Ediyoes 70, Lisboa, p. 212); e enfim de todos aqueles que entraram de questionar “a perspectiva tradicional sobre a natureza da racionalidade(António Damásio, O Erro de Descartes, Europa-América, Lisboa, p.13). É precisamente contra a perspectiva tradicional que Damásio defende a tese seguinte: “a emoyao é uma componente integral da maquinaria da razao(p.14). E mais adiante: “Nao me parece sensato excluir as emoyoes e os sentimentos de qualquer concepyao geral da mente(p.172).

E ainda: enquanto os acontecimentos mentais sao o resultado da actividade dos neurónios, no cérebro, a história prévia e imprescindível que os neurónios do cérebro tem de contar é a do esquema e do funcionamento do corpo(p.236). Por sua vez, B. S. Turner refere que é, hoje, lícito substituir o “penso logo existo pelo “consumo logo existo (cfr. Regulating Bodies -Essays in Medical Sociology, Routledge, London, 1992). Daí, que a origem nao seja o logos, mas a publicidade, o exterior, o epidérmico, o superficial. “É de facto a superfície do corpo o que se ve, que está patente, em todas as campanhas de publicidade, tornando-se o corpo, por um lado objecto de idealizayao, mas por outro potencial alvo de estigmatizayao, caso nao corresponda aos padroes expressos na própria publicidade (Maria Joao Cunha, A Imagem Corporal, Autonomia 27, Azeitao, 2004, p. 83). o normal é sempre o normalizado, por efeito da publicidade. E o que mais se publicita? A saúde, evidentemente! E através de que meios? os mais espectaculares e centrados na ciencia/ideologia bio-médica: a dieta e o exercício chamado físico, como se a saúde fosse possível com o físico como significante exclusivo, esquecendo-se que a saúde é um fenómeno social. Em todas as definiyoes de saúde está presente a multidisciplinaridade, pois que ser saudável pressupoe também uma “saúde social, decorrente de uma educayao em direitos humanos, da luta contra a iniquidade e a injustiya. “É verdade que o poder médico está no centro da normalizayao social. os seus efeitos estao por todo o lado: na família, na escola, nas fábricas, nos tribunais, etc. (Foucault Live; Collected Interviews, 1961-1984, org. por Sylvere Lotringer, Nova Iorque, 1996, Semiotexte). No entanto, as doenyas nao tem sempre o seu radical primeiro, na biologia. A CMH irroga-se o direito de pretender construir um diálogo entre todos os “homens de boa vontade -diálogo que seja mais do que um método, porque, nele, quem ensina aprende e quem aprende ensina, de modo que todos sejamos aprendizes (através da motricidade, da vida, dos afectos) da responsabilizayao social diante da exclusao e do desemprego. o corpo nao é natureza tao-só, trata-se de uma instituiyao política. o corpo em acto, ou a motricidade humana, pensa-se e pratica­se como construyao de sujeitos históricos, onde o possível é bem mais do que o real.

A CMH é um problema epistemológico porque, através de uma inequívoca mudanya de paradigma, cria um discurso novo; é um problema ontológico, pois concede prioridade a pessoa no acto da transcendencia e nao ao físico ou ao corpo-objecto; e é um problema político porque, nesta ciencia, se tem em conta a incorporayao do poder, como algo determinante na constituiyao de práticas estruturalmente situadas (sigo aqui o Anthony Giddens de Dualidade da Estrutura -agencia e estrutura, Celta Editora, oeiras, 2000). Nao esqueyo o Marcel Mauss da Sociologie et Antropologie, ao referir que “o corpo é o primeiro instrumento e o mais natural instrumento do homem. ou mais exactamente, sem falar de instrumento, o primeiro e o mais natural objecto técnico e, ao mesmo tempo, o meio técnico do homem é o seu corpo (PUF, Paris, 1997, p. 372). Daí
o nao dever estranhar-se que a construyao científica do corpo se realize “em primeiro lugar, pelo sistema de relayoes entre o conjunto de comportamentos corporais dos membros de um mesmo grupo e, em segundo lugar, pelo sistema de relayoes que unem aqueles comportamentos corporais e as condiyoes objectivas de existencia próprias desse mesmo grupo (Luc Boltanski, “Les usages sociaux du corps, Annales -Économies, Sociétés, Civilisations, volume 26, n° 1, pp. 205-233, 1971). E porque, embora o tropear de velhos positivistas, o corpo nao é um exterior sem interior, a construyao científica do corpo nao se faz sem a motricidade humana, sem o estudo do movimento intencional que visa, verdadeiramente, o desenvolvimento humano.

3. “Na introduyao do livro Epistemologia, Mario Bunge escrevia, no comeyo da década de oitenta do século XX, que a epistemologia, ou filosofia da ciencia, se tinha tornado no domínio mais importante da filosofia, nos últimos cinquenta anos(…). A ligayao as ciencias, no entanto, tem constituído sempre um veículo de revigoramento da própria filosofia, desde que Platao se empenhou em estabelecer a via em que o conhecimento científico se libertava das incertezas transportadas pelas informayoes sensíveis, para dar lugar ao conhecimento verdadeiro (José Luís Brandao da Luz, Introduao a Epistemologia, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2002, pp. 25/26). A “matematizayao galilaica da natureza (título do parágrafo nono do livro A Crise das Ciencias Europeias e a Filosofia Transcendental, em que Husserl refere os ganhos e perdas da idealizayao matemática da natureza), ou a mathesis universalis, que Leibniz forcejou por desenvolver, como sustentáculo da construyao do sistema das ciencias -ganharam em coerencia operativa o que perderam em realidade, pois que as coisas e os homens nao sao matemática tao-só. A ordem da lógica nao integra sempre a ordem real da existencia. No caso específico da CMH, que estuda o corpo em acto, é no campo das ciencias hermeneuticas, ou humanas, que é possível (e lógico) enquadrá-la. Assinalo, neste passo, que distingo tres grandes categorias de ciencias, na esteira de Jean Ladriere: as formais, as empírico-formais, ou da natureza, e as hermeneuticas, ou humanas. Uma epistemologia da Motricidade Humana, nao pode esquecer que esta nao é uma área de físicos, mas de pessoas no movimento intencional da transcendencia (ou superaao.

Aqui, o físico está integral, mas superado. Portanto, as expressoes “Ciencia da Actividade Física e “Ciencia da Educayao Física pecam por defeito. o mesmo acontece com a(s) “Ciencia(s) do Desporto, já que o “corpo em acto nao se circunscreve a prática desportiva. o Desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporaneo. Desconhece-lo é estultícia de tomo. Mas nao resume toda a motricidade. Constitui um desafio permanente para a epistemologia a clarificayao progressiva do sentido da acyao humana e, para tanto, a linguagem nao pode ser arbitrária, mas portadora de rigor e de fundamentayao. A “Cinesiologia quase sempre foi percepcionada como uma disciplina de uma licenciatura e poucas vezes se constituiu como ramo autónomo do saber. Demais, nao nos limitamos a área do “movimento, mas do “movimento intencional, ou seja, da “motricidade, de acordo com a definiyao da escola fenomenológica, da tradiyao hegelo-marxista e ainda da junyao animus-anima, proposta por Bachelard. Parece-nos, indubitavelmente, ser a Motricidade Humana o nosso objecto de estudo e o espayo em que se concretiza uma prática profissional. o Desporto, a Danya, a Ergonomia, a Reabilitayao Psicomotora e enfim os vários aspectos da motricidade, do jogo ao trabalho, passando pela saúde, o lazer e a educayao, sao as especialidades que despontam da CMH. Será preciso acrescentar que nos situamos, aqui, em pleno campo das ciencias humanas e (no meu caso pessoal) da consciencia crítica por um neo­socialismo e ainda de “um pensamento que nao quer encerrar-se nas definiyoes e por isso multiplica as significayoes e as palavras, usando o conceito de imaginaao, em Bachelard? o Desporto (um exemplo, entre outros) só a luz das ciencias humanas é possível estudá-lo. Ele beneficia também da aplicayao de formulayoes matemáticas (como a economia, a psicologia, a sociologia, etc.), mas seria redutor fazer da matemática o seu radical fundante. os cursos universitários de Desporto, após larga e porfiada reflexao, deverao questionar os seus habituais “curricula e aproximarem-se, sem equívocos, do corpo, dentro de quatro grandes níveis: o físico-biológico, o corpo psicológico, o sócio-político, o cultural e o noético eo corpo artístico. Deverao questionar os “curricula e os conteúdos da investigayao (expressos, por exemplo, nas revistas que editam) que repetem, muitas vezes, o que os médicos já esqueceram. Cito a
propósito David Le Breton: “La sociologia aplicada al cuerpo toma distancia de las aserciones médicas que desconocen la dimensión personal, social, cultural en sus percepciones del cuerpo. Porque parecería que la representación anatomofisiológica quisiera escapar de la historia para volverse absoluta (La sociologia del cuerpo, Ediciones Nueva Visión, Buenos Aires, 2002, p. 36). Embora se saiba que, no mundo gnóstico de afivelado rictus de desprezo pelo corpo, que alguma pós-modernidade prefigura, um mundo sem corpo, preenchido de circuitos electrónicos e de modificayoes genéticas ou morfológicas, parece ser o ideal que se procura. No entanto, os avanyos hodiernos das neurociencias já insculpiram, na ciencia e na filosofia, a especificidade da consciencia humana. António Damásio, na sua obra, apresenta fartas razoes científicas, em prol da tríade “cérebro-mente-corpo. o cérebro e o corpo sao inseparáveis, pois que se encontram relacionados, dialecticamente, por circuitos de ordem bioquímica e neural. De facto, o corpo remete ao cérebro sinais, por intermédio da corrente sanguínea ou dos nervos periféricos. Por sua vez, o cérebro também condiciona o corpo, por meio do sistema nervoso autónomo e músculo-esquelético ou da libertayao de substancias químicas no sangue. Aliás, é da relayao cérebro-corpo que desponta a mente. E esta fundamenta-se na incorporaao. António Damásio sugere que relembremos o caso dos “cérebros numa cuba, composto por Hilary Putnam, em Razao, Verdade e História (Publicayoes Dom Quixote, Lisboa, 1992, pp. 28-30). Imagine-se que um cérebro foi excisado do corpo e arrumado numa cuba que o mantém vivo, por terminais nervosos ligados a um supercomputador. E poe-se a questao: um cérebro separado do corpo, se bem que estimulado artificialmente numa cuba, possui uma mente? De facto, diz António Damásio, nao possui uma mente normal, pois que o funcionamento perfeito da mente decorre da interacyao cérebro-corpo, isto é, dos estímulos cerebrais enviados para o corpo e dos sinais de resposta que este, uma vez alterado, remete para o cérebro. “A relayao triádica e indissociável entre cérebro, mente e corpo, proposta por António Damásio, permite, a nosso ver, o afastamento e a superayao da forma clássica de pensar a natureza humana em termos duais, de cisao entre espírito e corpo. o autor propoe-nos um modelo de compreensao do Homem que implica a referencia a corporeidade, nao como uma contingencia, mas como algo essencial a sua constituiyao. A subjectividade damasiana é, na verdadeira acepyao da palavra, uma subjectividade unificada, uma totalidade concreta (Sara Fernandes, “A Identidade Pessoal -reflexoes em torno da neurociencia e da religiao, in A Mente, a Religiao e a Ciencia, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2003, pp. 219-220). Nao ficaria mal acrescentar, aqui, o que Paul Ricoeur nos ensina em Soi-meme comme un autre (Éditions du Seuil, Paris, 1990, p.14), adiantando que o Si supoe a alteridade, “em grau tao íntimo que um nao pode pensar-se sem o outro.
4. Mesmo que se conserve a expressao “Educayao Física, por interesses vários (um deles, o desinteresse pela constituiyao de um vocabulário científico e pela incapacidade de fazer ciencia, longe de um positivismo petrificado) que nao discuto, neste passo, julgo que será de manter a “Motricidade Humana, como o objecto de estudo desta área. Conhecimento, acyao, vontade, afectividade interpenetram-se e realizam-se de tal modo, na motricidade humana, que é ilusório, para os “professores de Educayao Física, admitir problemas puramente físicos, na sua profissao. o que se proclamou, no passado, como verdade, merece questionamento, actualmente. Kant definiu, de modo exemplar, no seu pequeno tratado sobre educayao, o que o senso comum entendia por Ginástica: “é a educayao daquilo que é natureza, no homem. Ele

nao conhecia a existencia de sistemas autopoiéticos. Se do século XVIII até hoje, nada tivesse florescido de original, de inovador, entao deixaria de ser uma realidade indesmentível o processo histórico. Uma teoria sobre o ser humano nao pode senao assentar basicamente no ser humano de que é a teoria. Como se poderia contribuir, doutro modo, a sua transformayao? ora, ao dizer-se que a transcendencia é o sentido da Motricidade Humana, confere-se ao “corpo em acto uma expressao profética, pois o que é nao pode ser. Mas a extensao da transcendencia nao se limita aos aspectos físicos do ser humano. A sua constituiyao e diferenya qualitativa, em relayao a Educayao Física, alarga a Motricidade Humana as dimensoes intelectuais, morais, sociais e políticas e poéticas da existencia. Todavia, o conceito de “transcendencia, ou superayao, pode aplicar-se também a própria matéria. Ilya Prigogine enunciou o conceito de estrutura dissipativa, que associa as ideias de ordem e desperdício de energia e matéria, ou seja, de ordem e desordem, significando, com este conceito, a aptidao que um sistema aberto possui, para adquirir novas propriedades, em consequencia de flutuayoes provenientes das suas interacyoes com o meio ambiente. A matéria revela-se, deste modo, capaz de auto-organizar-se. A entropia mostra-se nao só produtora de desordem, mas de uma ordem com a coerencia suficiente para dela emergirem novas propriedades dotadas de crescente autonomia, em relayao ao meio ambiente. Segundo Prigogine, na irreversibilidade pode estar o segredo da organizayao biológica. Cito, a propósito, este autor, no seu livro O Nascimento do Tempo: “o livro de Schrodinger fez-me intuir, em 1945, que os fenómenos irreversíveis podiam ser a fonte da organizayao biológica e, a partir de entao, esta ideia nunca mais me abandonou (p. 27 da traduyao portuguesa das Ediyoes 70). Prigogine propoe-nos uma visao optimista da realidade, onde ao tempo-degradayao da entropia sucede um tempo-criador que, a semelhanya da durée bergsoniana, informa a evoluyao do universo. “Nos mais diversos ramos das ciencias da natureza desenha-se, além disso, neste último quartel de século, o estertor definitivo do paradigma mecanicista, que vigorou na modernidade e tao grandes malefícios trouxe a ontologia, obrigando-a a um mais ou menos confesso dualismo substancial. Na verdade, como poderia comportar uma matéria, determinada por leis necessárias, a possibilidade e o acontecimento, em que se inscreve a aventura escalonante da vida? (Mafalda de Faria Blanc, Introduao a Ontologia, Instituto Piaget, Lisboa, 1997, p. 125). Poderíamos ainda referir a geometria fractal, bem como a teoria do caos e a das catástrofes. Enfim, de uma forma ou de outra, a natureza surge como uma potencia de organizayao e desenvolvimento, mais estruturada por processos e dinamicas imparáveis do que por estados de ordem e de equilíbrio. Todas as criaturas, desde as estrelas aos macro e micro-organismos, encontram-se em permanente processo de reorganizayao. De facto, a própria matéria inerte é energia e nao um conjunto de átomos rígidos, sujeitos a leis mecanicas de atracyao e repulsao. Tudo se movimenta para onde? Um dia, Antero de Quental exclamou: “Abrem-se as portas de oiro com fragor/ Mas dentro encontro só, cheio de dor,/ Silencio e escuridao -e nada mais!. Um ponto nos parece indiscutível: o movimento mais autenticamente humano é o que pretende acercar-se do desenvolvimento… ou do Absoluto, se assim se quiser! Poderíamos recordar o Santo Agostinho das Confissoes: “Fizestes-nos para Vós, Senhor, e o nosso corayao nao descansa, enquanto nao repousa em Vós. Este apelo ao mais-ser é um facto universal. Seria um decadente, um mutilado aquele homem (ou aquela mulher) que nao sentisse a necessidade imperiosa de movimentar-se para transformar e transformar-se. A motricidade humana é assim uma tomada de posiyao, diminui o campo do indeterminado, afirma-se como orientayao e sentido. Pois nao é verdade que todo o movimento intencional encerra necessariamente uma determinada concepyao de vida?
Retorno a José Gil, quando assinala, no livro que citámos, que a fenomenologia jamais considerou a consciencia fora da intencionalidade. ora, a “consciencia do corpo transforma-se em pensamento e abre o corpo a múltiplas conexoes com o mundo. o “bailarino apreende o sentido geral da sua danya, a situayao do seu corpo, no espayo e frente ao público, o jogo dos olhares e das energias na atmosfera, antecipa o sentido dos movimentos a executar. Está consciente de tudo isto, num grau muito superior ao de uma consciencia normal (idem, ibidem, p.179).
5. “Desde Descartes que pensamos contra a natureza, certos de que a nossa missao é dominá-la, conquistá-la (Edgar Morin, O Paradigma Perdido, Publicayoes Europa-América, Lisboa, 1975, p. 15). ora, em qualquer acyao, há que reconhecer “que as intersecyoes tempo-espayo se encontram envolvidas, em toda a existencia social, de maneira essencial. A análise social terá de reconhecer (…) a existencia de um sentido de différance que, mais do que duplo, tem um carácter triplo (…). A actividade social surge-nos sempre constituída, através de tres momentos de diferenya, entrecruzados temporalmente, paradigmaticamente (…) e espacialmente. Em todos estes sentidos, as práticas sociais sao sempre actividades situadas, ou modos de actividade historicamente localizados (Anthony Giddens, op. cit., pp. 12 e 15). Em Heidegger, tudo o que existe é um ente, é devir, é tempo. ora, o tempo donde nasceu a Educayao Física nao é o mesmo de hoje. Por isso, quando se fala em Educayao Física, é preciso reflectir e provocar a reflexao, precisamente num tempo em que a reflexao é difícil e bem fácil a informayao. E de uma informayao, sem reflexao, a banalizayao pode ser o seu risco e o seu resultado. Discernir, procurar a significayao e o sentido, agir intencionalmente na construyao de uma nova ética cívica parece mais árduo e menos cómodo do que estudar e promover as qualidades físicas, estender o império da técnica a toda a complexidade humana, esquecer a dimensao política de qualquer conduta intencional. A operacionalizayao da CMH depende da cultura, da competencia e da lideranya do professor, do técnico, do instrutor; da compreensao e receptividade do aluno, do atleta, do paciente; e das condiyoes sociais, que os condicionam, ou melhor, da estrutura, do sistema e da estruturayao. Nao se aprende tao-só, através de regras e preceitos. A práxis é insubstituível: quem nao pratica nao sabe! Só que a práxis supoe uma formayao, uma pedagogia. Assim, a CMH nao poe em causa o progresso científico, em todas as suas formas, mas rejeita o Homem Máquina de Galileu e Descartes e Newton e Kant e da “mathesis universalis e do positivismo e ainda dos liberais “laissez-faire e laissez-passer, ou do monolitismo de qualquer ditadura. A CMH só existe na medida em que assume o ser humano, na integralidade das suas funyoes e das suas potencialidades. E, porque assume, zela pela salvaguarda da dignidade humana. o profissional, em qualquer uma das especialidades da CMH, deverá ser, simultaneamente, um, digamos assim, eticista (sirvo-me de expressao de raiz anglo­saxónica que traduz o profissional com formayao superior, na área da ética e da biologia). No campo da educayao, o profissional do desporto, ou o da danya, ou o da ergonomia, ou o da reabilitayao psicomotora, poderao ter em conta a educaao bancária e a educaao problematizadora, tematizadas, como se sabe, por Paulo Freire. Segundo este notável escritor e pedagogo brasileiro, aquela pretende aprisionar os alunos numa situayao de “imersao; esta possibilita a “emersao das consciencias e, assim, uma inseryao autónoma e crítica na sociedade. ora, há demasiada educayao bancária, no desporto, incluindo os seus aspectos pedagógicos. Em Paulo Freire, a práis articula a acyao e a reflexao. Para ser práis, a educayao desportiva nao pode ser
nem verbalismo, nem activismo. Manuel Ferreira Patrício escreve, a propósito: “Uma prática cega é talvez agitayao, ou redunda inevitavelmente em agitayao. Só se foge a isso com a prática pensada. Ao nível das sociedades, a prática pensada é prática metódica, planificada -define finalidades e objectivos, mobiliza meios (Lioes de Aiologia Educacional, Universidade Aberta, Lisboa, p. 103). Que o mesmo é dizer: implica valores, comportamentos e relayao dialógica, já que, na educayao problematizadora, professor e aluno sao ambos educandos. E supoe igualmente a problemática do perguntar. É em funyao do perguntar que o educando nao se limita ao que o professor lhe ensina e que a cultura é o horizonte da educayao e esta se converte no desenvolvimento da autonomia. A que se resume a filosofia de Derrida, com a sua proposta de desconstruyao do continuismo fundamentador e Habermas, com a defesa da razao comunicacional e Edgar Morin, com o paradigma da complexidade e Maturana e Varela, com a teoria da autopoiesis senao a uma questao: como é possível uma “filosofia da diferenya, já que se torna impossível interpretar o mundo, a partir de um lugar arquimédico, de um ponto de vista absoluto? A Educayao Física, conforme Kant a entendia nas suas Réfleions sur lÉducation, “comum aos homens e aos animais, consiste no adestramento (J. Vrin, Paris, 1989, p. 89). Nao se esquece, neste passo, que a educaao física, em Kant, também inclui a cultura da alma, pois que, neste filósofo, alma e corpo nao sao duas substncias diferentes. No entanto, “esta cultura física do espírito distingue-se da cultura moral, já que esta última se relaciona apenas com a liberdade, enquanto aquela se relaciona unicamente com a natureza. Fisicamente, um homem pode ser muito cultivado, o seu espírito pode encontrar-se muito adornado e entretanto ele pode encontrar-se moralmente mal cultivado e mais nao ser do que um homem mau (Idem, ibidem, p.109).
6. Uma aula, ou um treino, a luz da CMH, deve principiar, com esta pergunta, feita pelos que a compoem: “Que tipo de pessoa quero eu que nasya desta aula (ou deste treino)?. E, depois, procurar-se-á unir e nao separar os vários métodos pedagógicos (ou de treino) e a filosofia que os deve acompanhar, para que se passe do conhecimento daquilo que é ao conhecimento daquilo que deve ser. o ser humano nao tem, unicamente, uma existencia biológica (onde sao visíveis também as complementaridades indivíduo/grupo, indivíduo/espécie, indivíduo/sociedade, indivíduo/cultura), mas também uma existencia, usando as palavras de Edgar Morin, antropossociológica, condicionada e construída pela sociedade, pela economia, pela cultura. ora tudo isto deve estar presente, na educayao, no desporto, na danya, na ergonomia e na reabilitayao psicomotora. “Hoje, a teoria dos sistemas substituiu a visao epistémica dos objectos pela dos sistemas, ou dos sistemas-objecto, entre os quais se encontra o sistema-objecto-sujeito-observador (José Rozo Gauta, Sistémica y Pensamiento Complejo II Sujeto, Educación, Trans-disciplinaridad, Biogénesis, Colombia, 2004, p. 133). De referir ainda que a noyao de sistema evoluiu de uma simplicidade estática, encerrada e fechada em si mesma, para uma complexidade aberta, dinamica, autopoiética, autorreferente e autorreflexiva, composta por elementos heterogéneos, que conformam e mantem uma unidade sistémica, na qual as qualidades emergentes sao maiores do que a soma das qualidades de cada um dos elementos. Estas ideias surgiram a margem da hiperespecializayao que invadiu as várias disciplinas científicas, ao mesmo tempo que entraram de acentuar a necessidade para o conhecimento de sistemas-objectos, abertos, dinamicos, autopoiéticos, auto-eco­organizadores e reflexivos -ao mesmo tempo que entraram de acentuar a necessidade, dizia, da inter, da trans, da multidisciplinaridade, enraizando (e nao reduzindo) o físico­
biológico no cultural e o cultural no físico-biológico. Com isto, nao se violentam despoticamente as disciplinas, pois que elas mesmas se fortalecem no diálogo e convívio, com os outros ramos do saber. A operacionalizayao da CMH é praticar a unidade bio-antropo-sócio-cultural e política., dado que, em cada sistema, há elementos doutros níveis e sistemas. Cabe aos professores e aos técnicos trabalharem a complexidade, nos exercícos e nas acyoes, que os seus alunos e atletas assumem, visando vários objectivos, tais como: a saúde, a educayao, o lazer, o trabalho, a competiyao desportiva (que há-de ser uma competiyao-diálogo, sem qualquer assomo de hostilidade). Nao é ser sensato endurecer na atitude de conservayao de métodos que a ciencia e a filosofia consideram defuntos, irreversivel e definitivamente. o futuro da CMH só pode ser o futuro (quatro exemplos, entre outros) de um desporto e de uma danya e de uma ergonomia e de uma reabilitayao que se convertam na expressao corporal do desenvolvimento sócio-económico e mesmo axiológico de um povo. o treino físico, o treino técnico, o treino táctico, o treino psicológico e o treino teórico, dentro de uma visao dinamica e integrada (dado que o treino analítico morreu), deve inscrever-se numa linha de promoyao de valores, os quais me parecem intrínsecos a CMH. o estudo e a vivencia do desporto resulta no estudo e na vivencia de valores, incluindo os cognoscitivos. “Colocar um problema , onde tudo parece evidente é essa a essencia do pensamento criador, tanto na ciencia como nos outros domínios. Levantar uma questao consiste em perspectivarmos uma realidade sob um novo angulo. o questionamento é constitutivo da experiencia, tanto da percepyao como do saber que dela resulta. Pouco importa aqui a modelizayao do processo interrogativo (Michel Meyer, A Problematologia, Publicayoes Dom Quixote, Lisboa, 1991, p. 61). E escreve, mais adiante, o mesmo autor: “Que tenha cuidado aquele que pretende já ter as respostas, sem se ter interrogado, sem as ter interrogado (p.274).
7. “De um ponto de vista conceptual, o poder encontra-se entre duas noyoes mais amplas: a de capacidade transformadora, por um lado, e a de dominayao, por outro.

o poder é relacional, mas só opera através da utilizayao da capacidade transformadora, tal como esta é gerada pelas estruturas de dominayao (Anthony Giddens, op. cit., p. 89). Poderíamos relembrar, aqui, que “foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. o corpo é uma realidade bio-política (Microfísica do poder, Ediyoes Graal, Lisboa, 1996, p. 80). oxalá o poder, seja ele qual for, com a vibratilidade típica do hermeneuta, se deite a pesquisar: se o que tradicionalmente se conhece como Educayao Física tem, ou nao, como objecto de teoria e de prática, a motricidade humana; se esta pode, ou nao, organizar-se, logicamente, como uma ciencia humana; e, se a motricidade humana é o “corpo em acto, os correspondentes “curricula universitários nao deverao rever-se, de modo a que se torne visível, no estudo e na pesquisa, um novo paradigma. De facto, é na busca de um novo paradigma que eu me situo -paradigma que nao é objecto, mas sistema. Com efeito, quem se movimenta intencionalmente, movimenta-se com bem mais do que apenas o seu próprio peso. A propósito, podemos chamar a colayao o Edgar

Morin de O Método

-1: “os objectos dao o seu lugar aos sistemas; no lugar de essencias e substancias, organizayao; em vez de unidades simples e elementares, unidades complexas; em vez de agregados que formam corpo, sistemas de sistemas de sistemas (p. 148). Daqui resulta que um sistema se constitui como uma rede de relaoes e de coneoes, que podem realizar-se, quer em baixa, quer em alta complexidade (e quanto maior é a complexidade, maior é a incerteza). “Para realizar la descripción de las relaciones intrasistémicas, debemos tener en cuenta que cada elemento a su vez es un sistema con todas las características de sistema y cuyos elementos constituyentes no son elementos que pudiéramos llamar simples. Según Luhman, la diferencia entre sistema y entorno obliga a sustituir la diferencia entre el todo y las partes por una teoria de la diferenciación de sistemas. La diferenciación de sistemas es, simplemente, la repetición de la formación de sistemas dentro de los sistemas (José Rozo Gauta, Sistémica y Pensamiento Complejo – paradigmas, sistemas, complejidad, Biogénesis, Colombia, 2003, p. 56). Assim, o que venho pretendendo organizar, de há quase trinta anos a esta parte, nao é um novo objecto, mas uma nova unidade complexa ou sistema, a CMH, onde o movimento se confunda com a utopia de transformayao da realidade. Também no desporto, na danya, na ergonomia, na reabilitayao psicomotora, etc., é preciso assumir em pleno a condiyao humana! As aulas, nos cursos de Motricidade Humana, devem repensar-se de forma a permitirem o desenvolvimento doutras qualidades, para além das físicas, tais como: a razao, a sensibilidade, a percepyao, a imaginayao. É evidente que necessárias se tornam: “a aproximayao personalizada do professor ao aluno; a estimulayao da actividade do aluno, como modo de estar e de fazer, em que ele se sente significativamente envolvido; a produyao do conhecimento, nao como prerrogativa do professor, mas comparticipada pelos alunos, numa dinamica de pesquisa sempre em aberto que permitirá, nao só aprofundar a informayao como ampliá-la e diversificá-la (Emanuel Medeiros, A Filosofia como centro do currículo, na educaao ao longo da vida, Instituto Piaget, Lisboa, 2005, p. 58)

-mas que se tenha em conta que, numa filosofia da educayao, as referencias e os instrumentos nao sao unicamente pedagógicos. E a ideologia? E a classe social? E a subjectividade? E a cultura? E o currículo oculto?… A superayao do idealismo, ou até do oportunismo, comeya na “definiyao de um caminho no qual está o sujeito real, que age, vive e pensa (idem, ibidem, p. 338). Nao há humanismo integral, nos hiperespecialismos, que aumentam exageradamente certas dimensoes do humano e subdesenvolvem outras. o treinador desportivo, ou o ergonomista, ou o técnico de danya, etc., etc. devem radicar a sua actuayao em grandes eixos axiológicos e políticos, onde se afirme o primado da ciencia sobre a tradiyao e o primado da sensatez sobre o capricho e o primado da esperanya sobre messianismos exógenos ou endógenos. A CMH é, antes de tudo, movimento imtencional e quem se movimenta, mais do que pensar, vive! Qualquer um dos aspectos da Motricidade Humana é uma forma de vida. E se “todo vivir es convivir con una circunstancia, como dizia ortega, no desporto (por exemplo), as funyoes cognitivas e afectivas do praticante sao mais do que desporto, mesmo em plena prática desportiva. De salientar, aqui, que o jogo é uma oportunidade única de desenvolvimento da crianya que nele aprende a aprender. A crianya (e o adulto) deve jogar como se a vida e a sanidade mental dependessem da actividade lúdica.

8. Inteirados do que vem de escrever-se até aqui, é-nos lícito fazer a síntese e concluir. A CMH ( decorrente de um corte epistemológico, ou de uma mudana de paradigma, no seio da Educaao Física. é uma nova ciencia humana, onde portanto o ser humano surge, como ser, consciencia e valor. Nao há aqui qualquer assomo de positivismo, ou da criayao de fronteiras artificiais (geradoras de claustrofobia) pois que a especificidade histórico-cultural e política da CMH é de rebeldia contra o que é aceite pela tradiyao acrítica e pela rotina e pela sua colonizayao da realidade, através do desenvolvimento a moda ocidental (sao chamados bárbaros os que se opoem a este processo civilizador.. De facto, é nas “margens (ou entre os marginais que nao se confundem com integristas e terroristas) que, muitas vezes, se conservam os valores humanos, contestados pelo Ter e pelo Poder. Nasce aí, normalmente, a crítica e a subversao da desordem estabelecida. E se o determinismo da ciencia ocidental, cartesiana e positivista, foi superado, por que nao há-de suceder o mesmo com o desporto excludente – produto do capitalismo mundializado? o método é

  1. o integrativo, ou seja, a síntese de muitos métodos, sem esquecer que o lugar constituinte da relaao eu-tu é a linguagem, é o diálogo. Um outro ponto a considerar: se a profissao do licenciado em Motricidade Humana radica num curso universitário, é certo que se fundamenta numa área científica (ou numa ciencia mesmo., dado que a universidade é o lugar, por excelencia, onde se cria e recria o conhecimento científico e daí procure proporcionar uma ampla cultura científica de base. Por outro lado, a ciencia exclui, tanto o maximalismo dos militantes fervorosos de uma causa, como o imobilismo dos práticos. Reafirmo a recusa, pela CMH, do positivismo e do cientismo. “Substituir Deus pelo Facto é foryar que a imaginayao, o sonho, o desejo de eternidade morram logo ali, sem que o sentido possa ser desocultado e perseguido (…). Em consequencia, qualquer cientista prudente dir-vos-á que nao deseja responder a questao do porque das coisas e que o seu domínio de predilecyao se limita a investigayao do como (Adalberto Dias de Carvalho (org.), Problemáticas Filosóficas da Educaao, Ediyoes Afrontamento, Porto, 2004, p. 51).
  2. Há fenómenos que escapam aos meios de pesquisa (investigayao) das ciencias. Uma lágrima, por exemplo, nao é só água e cloreto de sódio. E a miséria que grassa pelo mundo nao se resume a um fenómeno típico da economia, porque reveste também a dimensao ético-política. Os cursos de Motricidade Humana hao-de acentuar que o saber nao é um conjunto de conhecimentos puramente intelectuais, nem simplesmente físicos, pois que a cultura é a alian a do saber e da vida. Por isso, a universidade há-de reforyar a ligayao ao universo do trabalho, procurando ligayoes institucionais com empresas, hospitais, ginásios, clubes, etc. Também os cursos de Motricidade Humana nao devem deiar aprisionar-se pelo modelo biomédico tradicional (que decorre das seguintes premissas: enfase em medidas numéricas e em dados bioquímicos, dualismo corpo-mente, visao das doenyas como entidades, reducionismo, enfase no doente individual e nao na família ou na comunidade) porque a saúde passou a ser observada doutra forma. A evoluyao do conceito de saúde estuda-se, hoje, dentro de um conceito sistémico. Demais, só de dentro de uma visao sistémica pode emergir uma “utopia motora que seja a expressao corpórea de uma utopia social. Por isso, o atleta que só faz
  3. o que o treinador ordena é, de certo, um praticante de fraco nível. Depois, os profissionais de Motricidade Humana deverao trabalhar na Saúde, mas também no Desporto, na Arte, na Educayao, no Lazer, no Trabalho. A Motricidade Humana terá futuro se formar educadores e técnicos, que sejam simultaneamente investigadores (criadores e recriadores de condioes que humanizem a vida de cada um de nós, como cidadaos, como profissionais, como pessoas. e nao professores, simples técnicos que nao passaram ainda a hodierna tecnociencia (meros transmissores de velhos conhecimentos). A problemática dos profissionais de Motricidade Humana inscreve-se no círculo mais amplo da problemática da formayao humana e ainda da inovayao e da competitividade, tao em voga, mas visando sempre a saúde e a educayao problematizadora… para todos! os profissionais de Motricidade Humana sao, indubitavelmente, mesmo com a designayao profissional de técnicos, formadores, isto é, recebem e dao formayao, em vista a um futuro, no qual a variedade seja unidade também. Definem-se duas grandes possibilidades da CMH: um saber que se estuda e desenvolve, no círculo restrito dos especialistas; uma prática que vai chegando, nas suas várias formas, ao alcance de todas as pessoas. Há, assim, nesta acepyao, uma dimensao

 

iniludível entre o desporto, a danya, a ergonomia, a reabilitayao psicomotora e a democracia e a própria filosofia. Temas como as liberdades fundamentais, a generosidade, o companheirismo, a solidariedade, a justiya, o respeito pelos outros e por nós mesmos, etc., temas eminentemente ético-políticos, devem acompanhar uma práxis que se pretende, em primeiro do mais, saudável e promotora de uma boa condiyao física (physycal fitness). Mas, as variáveis associadas a um estilo de vida saudável sao também políticas. Na linha da prática política, a CMH aceita e admira os espectáculos de Desporto e Danya, praticados por superdotados e supertreinados. Mas que nao se promova o espectáculo desportivo, para conformizar e anestesiar multidoes, para adormece-las enfim a recusa da sociedade injusta estabelecida. Em tudo o mais, o atleta super-dotado assemelha-se ao artista e ao literato e ao cientista e ao técnico, super­dotados, isto é, merece apoio, admirayao e aplauso.

Qual o futuro da CMH? Depois da ginástica (a Gymnasia, entre os gregos, integrava a Athletiké, como sua sub-classe) e da educayao física, oxalá ela seja considerada (e construa para tanto as linguagens e as ferramentas teóricas) uma ciencia fundamental, como fundamental é, para o ser humano, o movimento intencional, visando a transcendencia, a qual é, para a CMH, o sentido da vida. Que nao se esqueya, por fim, que é imperioso inovar. Mas será a inovayao um valor absoluto em si? Se a ciencia e a cultura sao universos necessariamente axiológicos, importa acompanhar a inovayao de um questionamento permanente, de uma busca incessante de sentido e de sabedoria. É normal, em nome da inovayao, descambar no mais puro cientismo ou colectivismo. Na linha filosófica da CMH, afinal uma filosofia humanista e personalizante, nem toda a mudanya é inovayao. Só o é verdadeiramente se houver nela um acréscimo de humanidade, na sua prática e na sua teoria. Manuel Ferreira Patrício, um dos expoentes da Filosofia da Educayao, em Portugal, escreve a propósito da Educayao: “o que vem de novo em Educayao nao é necessariamente bom. A genuína inovayao educativa exige a envolvencia axiológica (in Emanuel oliveira Medeiros, coordenador, Utopia e Pragmatismo em Educaao Desafios e Perspectivas, Universidade dos Ayores, Ponta Delgada, 2002, p. 58). Mutatis mutandis, ao referir-me a CMH, que nao é só Educayao, faria minhas as palavras do insigne pedagogo.

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